ter. mar 19th, 2019

A heroína discriminada

A abordagem policial à judoca Rafaela Silva merece repúdio de toda a sociedade e de seu braço armado, a PM

Rafaela e a medalha que dá orgulho a um país acostumado a discriminar negros, mulheres, gays, deficientes…

Foto: Reprodução/Internet 
Kleber Vieira

Injustificada, descabida, deplorável, condenável, desmedida, absurda… faltam adjetivos para classificar a abordagem de alguns policiais militares à campeã olímpica Rafaela Silva, ontem, na Avenida Brasil.

Fiz questão de escrever ‘alguns policiais militares’, em vez de dizer que foi “a PM”, como muitos veículos de comunicação publicaram. Isso, por saber que os tais que abordaram a heroína dos tatames não são a corporação, ‘são da corporação’, ‘estão na corporação’, mas não representam o pensamento e a missão da corporação, que é “servir e proteger”.

Independentemente do que pensa cada homem e mulher que veste a briosa farda da Polícia Militar – ou qualquer uma das forças de segurança -, tem de “servir” Rafaela Silva, como parte do povo a ser servido pela PM; tem de “proteger” Rafaela Silva, pois é parte da elite mundial de medalhistas Olímpicos, ou seja, ela é patrimônio do esporte no planeta.

E a PM tem de servir e proteger qualquer pessoa, com esmero e sem acepção, pois a Constituição diz que  todos são iguais perante a Lei. E, também, porque o ser humano deve tratar os outros como gostaria de ser tratado.

Rafaela Silva é igual a mim, o jornalista que escreve esse texto, igual a você, que está lendo o que escrevo, igual aos policiais que a abordaram, igual aos filhos, pais, mães, irmãos e amigos de todos, inclusive de quem a abordou. E não é porque ela é uma celebridade internacional: é porque ela é, simplesmente, um ser humano.

A nota oficial da Polícia Militar, divulgada na imprensa, foi ainda pior que a discriminação sofrida pela atleta.

Ao dizer que “as declarações da judoca Rafaela Silva, de que teria sofrido constrangimento durante uma abordagem ao táxi em que viajava na quinta-feira à noite, na Avenida Brasil, são injustas e não ajudam o trabalho de combate à criminalidade”, o autor só reforçou o comportamento reprovável de quem desrespeitou um cidadão em seus direitos constitucionais básicos.

O corporativismo existente nas instituições, fato que não é exclusivo da PM, impede o autoexame, a autocrítica, de reconhecer um equívoco, e pedir desculpas a quem foi alvo de uma conduta inadmissível e inadequada.

A nota da PM deveria ser de desagravo à menina pobre, que sobreviveu ao ambiente degradante e hostil da Cidade de Deus, uma das favelas mais violentas do país.

Uma pessoa, que venceu a influência do péssimo ambiente em que viveu na infância e adolescência, e de forma tão brilhante que, em vez de virar mais um desses jovens associados à marginais, hoje serve de bom exemplo para jovens daquela e de outras comunidades, pobres ou não, onde moram militares e civis, todos merecedores de respeito.

Afinal, quantos de nós podem exibir uma medalha olímpica de ouro, prata ou bronze, aqui nesse país, de políticos sem credibilidade, de corruptos nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e de dirigentes que desvalorizam seus grandes vencedores?

E se a nota oficial – ninguém da PM botou a cara – diz que “as declarações” indignadas da discriminada campeã mundial e olímpica “não ajudam no combate à criminalidade”, o documento da corporação, não se retratando com uma heroína olímpica, só enfatiza que, neste país, é mais fácil fechar os olhos a uma conduta deplorável de pessoas que segregam outras, independentemente de serem famosos ou anônimos.

A nota oficial da Polícia Militar também não ajuda em nada no combate a um crime tão presente na nossa sociedade, e que de tão comum, passou a ser banalizado. A quem bolou a nota, apenas um esclarecimento: racismo é crime… inafiançável e imprescritível, devendo ser combatido por todos nós, com a ajuda das autoridades constituídas, inclusive de quem idealizou e assinou o documento.

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