ter. mar 19th, 2019

Parece que foi ontem, mas tem 30 anos

O primeiro título a gente nunca esquece

Reprodução

* Alaide Pires

Desafio rápido.

Alguém se lembra o que estava fazendo na véspera do Halloween de 1988, há 30 anos?

Você nem era nascido? Perdeu, playboy, já era a Ferrari.

Hã, Cuma? Não contei que esse era o prêmio? Pois é, devia ter se esforçado mais…

Bem, de posse da minha Testarossa, aqui vão algumas dicas.

Nesse dia, 30 de outubro de 1988, a Imperatriz Leopoldinense apresentava o samba-enredo “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”, sagrando-se campeã no ano seguinte; o Botafogo conseguia sua primeira vitória na Copa União, após jejum de nove jogos, e o caderno de classificados de O Dia anunciava lotes no Recreio dos Bandeirantes por 5 milhões de cruzados novos.

E agora, melhorou?

Esse também foi o dia em que, lá do outro lado do mundo, no circuito japonês de Suzuka, Ayrton Senna da Silva conquistava seu primeiro título mundial de Fórmula-1.

E é só por isso que eu me lembro desse dia.

E vejo tudo, com riqueza de detalhes, como se estivesse assistindo a corrida ao vivo. Só que agora, 30 anos depois, a imagem também me inclui.

Estou deitada no sofá, o cinzeiro ainda sem pontas de cigarros (é, eu fumava, me julgue!) esperando tranquilamente a corrida começar. Senna está na frente, com o francês Alain Prost, seu arqui-inimigo e companheiro de McLaren, na segunda posição, após uma luta feroz pela pole. O que poderia dar errado?

Tudo.

Na largada, o carro de Senna, em vez de arrancar, dá um soluço para frente e… para. “Ferrou”, tento dizer para alguém, mas o silêncio da madrugada me informa que, pelo menos ali no meu bairro, todos estão dormindo, alheios ao drama que se desenrola no Japão.

Senna cai da primeira para a décima-sexta posição e agora já não está sozinho no cockpit. Quando a McLaren enfim se movimenta, sento na pontinha do sofá e vou guiando com ele curva a curva, reduzindo nas chicanes, acelerando nas retas, sacudindo as mãos para os adversários que insistem em ficar no caminho.

Para cúmulo do azar, Prost, em arrancada fulminante, vai se distanciando na ponta. Já não há contato visual. “Será que nada de ruim acontece com esse francês?”, lanço a praga assim como quem não quer nada, esperando alguma providência do Universo, que à essa altura, não conspira a nosso favor.

Senna agora se move como o tubarão de Spielberg: voraz, escorregadio, letal e indestrutível, desviando-se com precisão dos obstáculos. O cinzeiro se enche rapidamente de pontas de cigarros e, quando ele deixa mais um adversário para trás, vou correndo na cozinha atrás de uma cerveja (logo eu, quase abstêmia) para controlar as batidas de um coração acelerado.

Os gritos de Galvão Bueno me pegam de surpresa, já de copo na mão. “Ai meu Deus, Senna bateu. Ele bateu”. O pensamento vem como um raio, quase paralisando as pernas que correm em direção à TV, na sala. O teto preto que nubla meus olhos é prenúncio de tempestade. Mas ela é de verdade, lá no Japão. E todo sennista sabe que chuva é sempre bem-vinda quando Ayrton está em dificuldades.

Um, dois, três, cinco, sete, dez… quantos pilotos já ficaram para trás? Perdi as contas enquanto ando de um lado para o outro, mais um cigarro na mão. Reginaldo Leme avisa que a distância entre Prost e Senna caiu pela metade e começo a zombar do francês que, todos sabem, tem medo de água.

Quando Ayrton finalmente aparece no retrovisor de Prost, me rebelo contra o silêncio da madrugada. O mundo precisa saber o que está acontecendo em Suzuka. Solto o primeiro rojão, um dos poucos que sobraram do último réveillon. Alguém abre a janela, pede explicações, com um olhar zangado. “Senna vai ser campeão”, digo empolgada para o vizinho nada amigável.

A resposta é “plaft”, janela na cara.

Senna passa Prost e agora a cortina de água parece ter se transferido pros meus olhos, mal consigo ver as imagens finais do piloto socando o volante e levantando o punho, seu gesto característico de triunfo. É final de Copa do Mundo pra mim – e o Brasil venceu!

Solto mais três rojões, ignorando o bom-senso e qualquer protocolo de boa vizinhança.

Outras janelas se abrem.

“Senna é campeão”, estou berrando.

Alguns vizinhos sorriem. Parecem perdoar aquela estranha extravagância às 3 horas da manhã.

Passaram-se 30 anos? Parece que foi ontem. Hoje e amanhã também.

* Alaide Pires 

Jornalista, foi titular da coluna Voando Baixo, escrevendo sobre automobilismo nos jornais Extra e O Dia.

 

 

1 thought on “Parece que foi ontem, mas tem 30 anos

  1. Ahh Lalá, sua narrativa mais parece um vídeo da corrida e da sua emoção. Consegui ver até a brasa das guimbas dos cigarros se acumulando no cinzeiro. Salve Ayrton Senna, nosso herói de balaclava e elmo.

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